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22/02/2010 - 10:26 | DCI - SPAliança Francesa cresce na onda das parcerias
As comemorações do Ano do Brasil na França, e vice-versa, que envolveram um calendário extenso de shows, eventos culturais e parcerias econômicas entre grupos brasileiros e franceses, ao longo do ano passado, tornaram-se um forte chamariz para cursos desse idioma. O francês é utilizado hoje no mercado corporativo brasileiro por multinacionais de peso na economia, como as redes Carrefour e Casino -que têm participação no Grupo Pão de Açúcar- e também a L'Oreal, para ficar em alguns exemplos.
Atenta a essa demanda, que parece despontar principalmente por parte de executivos que precisam estar preparados para a globalização dos negócios, a rede de ensino de línguas Aliança Francesa é uma das que vêm a público comemorar desempenho expressivo no Brasil. A região de São Paulo já é, para o grupo, o terceiro maior negócio em termos de número de alunos: atualmente a Aliança tem 10 mil alunos, saindo de um patamar de aproximadamente 6.800 em 2006.
Para falar sobre a Aliança Francesa e sobre a relação entre as economias brasileira e francesa, que tem dado saltos a olhos vistos, além de um plano do Governo do Estado de São Paulo de voltar a colocar a língua francesa como orientação na grade curricular, indicando uma mudança no quesito de ensino de idiomas na esfera da educação pública, Renato Vieira, diretor comercial e de Marketing da Aliança Francesa, participou do programa "Panorama do Brasil", parceria do jornal DCI e da rádio Nova Brasil FM com a TVB, comandado pelo jornalista Roberto Müller, na companhia de Milton Paes, representante da rádio.
Roberto Müller: Aparentemente, depois de Brasil e França terem, em anos recentes, comemorado e homenageado um ao outro com o Ano da França no Brasil e com o Ano do Brasil na França, as relações dos chefes de Estado dos países têm-se intensificado. Estamos assistindo a uma incursão de capital francês na área estratégico-militar, como o submarino, ou ainda a compra dos caças que ainda não está concluída, contando com a notória simpatia do presidente Lula pela tecnologia francesa. Acredita que tudo está dentro de algum plano estratégico de aproximação entre as duas nações?
Renato Vieira: Primeiramente, obrigado pelo convite. É uma satisfação poder expressar a importância do relacionamento França-Brasil e do papel da língua e da cultura francesa na sociedade brasileira. Se olharmos o panorama histórico, nós já temos um período de quase 500 anos, desde o descobrimento. É claro, com períodos de maior e menor aproximação. É claro que com os desenvolvimentos econômicos e culturais houve um boom em relação à cultura francesa. E nesse aspecto a gente tem observado uma maior demanda pelo aprendizado, pela cultura e língua francesa. Hoje temos mais de 600 empresas que têm no francês a língua de sua matriz, como, por exemplo o Carrefour, ou o Grupo Casino, com participação dentro do Pão de Açúcar. Nós temos expoente na indústria de cosméticos, o segundo maior mercado do mundo da L'Oreal. Temos a Citroën, que agora comemora 90 anos de atuação. Tudo somado, mais os aspectos culturais que sempre foram muito próximos entre Brasil e França, fazem com que estes elementos tenham sido revigorados a partir do Ano da França no Brasil. Em 2005 houve o Ano do Brasil na França, e foram promovidos inúmeros espetáculos, manifestações culturais e muitos acordos foram assinados para essa aproximação; em retribuição, celebrou-se o Ano da França no Brasil ano passado. A ideia é que a partir dessa aproximação haja, através das relações socioeconômicas, culturais e empresariais, um fortalecimento do relacionamento e, lógico, haverá uma maior procura pelo conhecimento da língua e da cultura francesa.
Milton Paes: Eu me recordo desse Ano do Brasil na França em 2005. Eu me lembro de uma série de shows que foram feitos e a cultura brasileira foi muito absorvida pelos franceses, que admiraram muito os ritmos brasileiros, que são muitos. E tivemos a oportunidade de constatar, a partir do ano passado, com os diversos eventos culturais, que de certa forma vocês perceberam que, depois desse Ano da França no Brasil, as pessoas começaram a despertar para a sua cultura e passaram a procurar mais o idioma francês. Vocês perceberam isso na Aliança Francesa?
Renato Vieira: Na verdade, tanto nos eventos em 2005 quanto em 2009, houve a descoberta de um e do outro, e como normalmente as relações entre países passam por momentos de maior e menor aproximação, o que realmente houve e ficou muito marcante foi a redescoberta do outro, fazendo com que a diversidade da nossa cultura se associasse à diversidade da cultura francesa, e que assim os dois pudessem ter uma ligação mais forte.
Eu acredito que estamos estabelecendo a partir desse momento um estágio muito avançado nas relações diplomáticas entre os dois países, uma nova forma de fazer diplomacia, ou seja, a partir dos laços culturais já estabelecidos ao longo dos séculos, e reforçados através de manifestações culturais e artísticas - e no bojo disso vem também toda a parte econômica, porque há uma tendência normalmente de se concentrar na parte econômica, que envolve grandes cifras. Mas à medida que os países se compreendem, é da natureza do processo de comunicação que haja uma evolução desse relacionamento e ele passa a envolver as mais diferentes áreas de atuação, trazendo também grandes benefícios para economia e para o turismo, porque ambos estão se frequentando um pouco mais: brasileiros vão mais à França, e mais franceses vêm ao Brasil, e esse é um aspecto muito interessante.
Roberto Müller: Quantos países falam a língua francesa?
Renato Vieira: Hoje existem 56 países no mundo que têm o francês como o seu idioma oficial. E ainda temos mais alguns outros países que a têm como segunda língua. É de se observar principalmente que há países na África em que a língua francesa é predominante, e no norte da África nós temos países onde a língua francesa é o segundo idioma. É o caso de Argélia, Tunísia e Marrocos onde o árabe é predominante, mas a língua francesa o acompanha de perto. E se levarmos também em consideração que a África é uma das regiões do mundo onde a demografia mais aumenta e se expande, os laços com o Brasil também tendem a crescer.
Roberto Müller: Há um desenho geopolítico nesta movimentação das diplomacias da França e do Brasil?
Renato Vieira: Exatamente. Há esse alinhamento de interesses entre os países, pelo fato de a França ter tido uma participação na colonização desses povos, e o Brasil ter recebido uma grande massa de pessoas originárias do continente africano. Então nós temos elementos em comum que fazem com que o lado cultural esteja muito próximo, há elementos de proximidade. Em seguida vêm as relações sociais e as econômicas. Temos de levar em conta que o continente africano está em franco desenvolvimento, e países como o Brasil poderão ser fornecedores de muito daquilo de que se precisa em termos de produtos e serviços, até pelo estágio em que se encontra nossa indústria. Também já temos algumas empresas importantes, como a própria Odebrecht, que é um grande conglomerado da área de engenharia que disputa palmo a palmo várias concorrências em todo o continente africano. Uma coisa muito comum é que esses técnicos têm de falar a língua do país para poder haver maior aproximação com essa sociedade, e o francês tem presença muito grande nessas regiões. O mais importante é que no Brasil temos mais de 600 empresas de língua francesa, não importa a nacionalidade -suíças, francesas, canadenses, ou belgas-, que empregam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Isso já dá o potencial imediato do tamanho do mercado de trabalho no Brasil onde o francês se faz presente e vai fazer com que o profissional possa se destacar nas empresas que conseguem tantos empregos.
Milton Paes: Falando especificamente sobre a Aliança Francesa, muitas pessoas conhecem a Aliança, entretanto muitos devem estar se perguntando: o que a Aliança Francesa faz? Ela é uma escola de idiomas, mas que projetos desenvolve? Fale-nos um pouco sobre a atuação da Aliança.
Renato Vieira: Um ponto importante é que o nosso maior desenvolvimento econômico se dá no Brasil, e isso faz com que o Brasil se relacione muito mais com a comunidade mundial. A ideia do mundo globalizado exige o conhecimento de diversos idiomas. Eu, particularmente, sou defensor da tese de que o mundo é poliglota e, para que as pessoas estejam preparadas, é necessário falarem diversos idiomas, não ficarem concentradas em apenas um idioma: esta poderá ser a preferência inicial, mas o mundo caminha para a diversidade. A Aliança de São Paulo é a terceira maior do mundo em numero de alunos: tem 10 mil alunos, tendo saído de um patamar de aproximadamente 6.800 alunos em 2006, e alcançado 10 mil no fim de 2009. As outras são Nova York e Cidade do México, onde o ensino da língua francesa ainda é obrigatório na rede pública de ensino. Mas a relação econômica, acadêmica e artística entre França e Brasil faz com que haja um despertar do interesse pela língua francesa.
Então nós falamos sobre o número de empresas de língua francesa sediadas no Brasil e que empregam uma grande quantidade de pessoas. Temos também o lado acadêmico, porque a França é um dos países que mais oferecem condições para melhorar a formação acadêmica dos interessados em estudar lá. O ensino francês é gratuito, o que lhe dá um diferencial competitivo muito grande e faz com que as pessoas tenham esse interesse. Outro lado é o cultural. As pessoas preferem ir à Aliança Francesa não apenas para aprender a língua, mas porque junto com a língua tem a cultura. Nós temos de levar em conta grandes personagens da história, escritores e artistas franceses, e uma série enorme de nomes que tiveram influência na construção da civilização e fazem com que essa preferência ainda esteja arraigada na vontade das pessoas de aprender um pouco mais. Por exemplo, um escritor como Victor Hugo hoje é tão atual quanto foi no fim do século XIX, entre outros escritores igualmente importantes que são estudados e que têm presença dentro dos cursos da Aliança Francesa. Então o que a gente vem percebendo é que esse interesse não é despertado apenas pelo lado econômico, ou de empregabilidade, mas, acima de tudo, 65% dos nossos alunos, declarados em pesquisa, preferem estudar a língua francesa na Aliança por conta da cultura que vem junto. Por isso quando vocês observarem a campanha que colocamos no ar esse ano, francês com cultura, como um agregado de valor, e por isso se estuda na Aliança Francesa.
Roberto Müller: Me ocorre que boa parte da atual geração que está no poder no Brasil desfrutou dos benefícios das relações históricas e desse gosto pela democracia que os franceses têm e viveu exilada em Paris, e lá sobreviveu até poder voltar, até a benfazeja redemocratização do Brasil. Isso tem a ver, de alguma maneira, com essa reaproximação, com o fato de que boa parte dos governantes dos estados tem buscado na generosidade francesa e na tradição democrática o seu exílio e sobrevivência?
Renato Vieira: Eu diria que é um elemento facilitador, e que de certa forma cria uma maior empatia pela língua e pela cultura francesa. Agora o que estamos observando, e é uma tendência de mercado exatamente, tanto a globalização da economia quanto os estudos de intercâmbio, que são grandes facilitadores, é que a classe média brasileira hoje já estuda mais no exterior do que fazia há não muito tempo. Isso estabelece pontes e necessidades de comunicação que não se tinha antes. E a própria abertura econômica do País facilita isso. Agora o que a gente vê com bastante simpatia é que teremos dois grandes eventos no Brasil: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, e há uma necessidade de preparação das pessoas para receber um grande contingente de turistas, de pessoas que irão circular, não só para os Jogos, no Brasil inteiro. Por exemplo, o governo de São Paulo assinou recentemente um decreto convidando as escolas institucionais, como a Aliança Francesa, a fazer parte de um processo de licitação que facilite o acesso do estudante do ensino médio ao aprendizado de outros idiomas, entre os quais temos o inglês, o espanhol e o francês. Este tipo de estímulo faz com que o francês volte realmente a ter essa presença dentro da rede pública, e é também um passo importante para que o mercado, como um todo, atenda essas várias necessidades que estão surgindo, derivadas desses eventos e também da economia e do mundo acadêmico.
Milton Paes: Há uns 20 anos os idiomas obrigatórios, ou opcionais, nas escolas públicas, eram francês e inglês. Repentinamente passou a dominar somente o inglês. Atualmente, o inglês e o espanhol. Você colocou uma questão bem importante: o mundo tem de ser poliglota, o que considero uma verdade, realmente. As pessoas têm de ter a oportunidade de se comunicar em diversos idiomas. Na sua avaliação, que fato aconteceu para esse esvaziamento do idioma francês nas escolas públicas? Já deu para perceber, pela sua colocação sobre o decreto do governador José Serra, que particularmente a Aliança Francesa vê com bons olhos a reaproximação do ensino público com a língua francesa. Mas o que você acha que aconteceu para provocar esse distanciamento?
Renato Vieira: Houve uma mudança na própria grade curricular. Até os anos 1960 eram obrigatórios alguns idiomas, como eram também, antes desta época, o latim e o grego. O que ocorreu foi um processo evolutivo, e quando se chegou aos anos 60 as coisas mudaram um pouco. O que era obrigatório tornou-se facultativo, foi retirado da grade, e aos poucos foi sendo abandonado; à medida que você não dá importância a essas matérias na grade curricular, você também não forma mais professores, portanto não forma interesse pelo ensino da língua. O que está acontecendo agora, nesta retomada, é o reconhecimento da melhoria da formação técnica da população, ou seja, a questão idiomática é fundamental para que o indivíduo, além da formação básica que ele recebe, também tenha maior conhecimento de línguas para chegar ao ponto de ser poliglota, para se comunicar melhor com o mundo, não somente pelas relações pessoais e empresariais, como para uso da própria internet. Hoje o francês ocupa, segundo dados que obtive recentemente, a quinta posição entre os idiomas que mais são utilizados na internet. Se falarmos que essa nova era faz com que as pessoas se comuniquem mais, principalmente pela internet, este será um facilitador para que as pessoas possam expor suas ideias e se relacionar com as outras, e obter uma melhoria da sua formação. Vemos com bons olhos o posicionamento do Governo do Estado de São Paulo, e que poderá ser acompanhado por outros, de colocar o ensino de idiomas com algo prioritário na educação das pessoas.
