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04/03/2010 - 09:15 | O Globo - RJCom fé em 'O profeta', a França pode tirar o Oscar de 'A fita branca'
Conquistar nove Césars, láurea mais importante do cinema na França, fez o drama carcerário “O profeta” (“Un prophète”) ser encarado como o único longametragem com vigor estético para tirar do alemão “A fita branca” o Oscar de melhor filme estrangeiro. Neste domingo, Jacques Audiard pode se tornar o primeiro cineasta francês, após 17 anos de abstinência, a conquistar a mais cosmopolita estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O último conterrâneo de Audiard oscarizado na categoria foi Régis Wargnier, com “Indochina”, em 1993. Agora, a saga do analfabeto árabe Malik (Tahar Rahim) e sua ascensão social na casta do crime pode aumentar o prestígio de Audiard, vencedor do Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes pelo filme, que só estreia aqui no dia 30 de abril.
Mas o Oscar pode antecipar sua vinda ao circuito nacional.
— É comum no cinema francês vermos os árabes residentes em nosso país serem abordados a partir de histórias sobre integração, seja social, econômica ou cultural. Nosso esforço em “O profeta” foi enxergar além dessa questão. No filme, a integração já está dada. Os problemas são outros: a pobreza, a afirmação de território. É um filme de cadeia — explica Audiard, por e-mail, ao Globo.
Fã dos santos e dragões baianos de Glauber Rocha
Além de “O profeta” (França) e “A fita branca” (Alemanha), estão em disputa pelo Oscar de filme estrangeiro os longas “O segredo de seus olhos” (Argentina), “A teta assustada” (Peru) e “Ajami” (Israel). Conhecido no Brasil por filmes premiados internacionalmente como “De tanto bater, meu coração parou” (2005) e “Um herói muito discreto” (1995), Jacques, de 57 anos, é filho de um dos mais profícuos roteiristas franceses, Michel Audiard (1920-1985), diretor de “Ela não bebe, não fuma, não paquera.
Mas...” (1969).
— Acredito que atualmente eu só esteja familiarizado com os cineastas brasileiros que todo mundo fora do seu país conhece: Fernando Meirelles, Katia Lund, Walter Salles. Mas, historicamente, houve um diretor brasileiro que muito me influenciou: Glauber Rocha, com seu “Deus e o Diabo na terra do sol” e, sobretudo, seu “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”.
As imagens de “O dragão...” nunca saíram da minha cabeça — diz Audiard, respeitado pelos roteiros que escreveu, inclusive em parceria com o pai.
Vencedor do César de melhor diretor, Jacques passou para o primeiro time dos realizadores de seu país depois que chocou Cannes com seu relato sobre as prisões europeias da atualidade. Seu “O profeta” é um conto moral centrado na conversão de Malik em um criminoso temido. Detido como um bandido pé-de-chinelo, ele passa a ser respeitado ao aprender sobre as manhas da prisão sob os auspícios de um chefão, Luciani (Niels Arestrup).
Mas, pouco a pouco, o jovem vai superando o mestre, brindando a plateia com um jogo de interpretação saudado com o César de melhor ator, para Rahim, e o de melhor coadjuvante para Arestrup.
— Na França, foram produzidos muitos filmes ambientados em cadeias sem características que os qualifiquem como gênero específico, o chamado “cinema carcerário”. Curiosamente, nosso filme chega às telas em um momento no qual se debate a realidade nos presídios no país — diz Audiard, pivô de um intenso debate deflagrado pósCannes acerca de uma leva de filmes franceses centrados na presença de imigrantes árabes e eslavos no Velho Mundo.
“Entre os muros da escola”, de Laurent Cantet, “Bem-vindo”, de Philippe Lioret, e “O segredo do grão”, de Abdel Kechiche, eram os longas mais conhecidos nessa linhagem de reflexão multicultural. Com “O profeta”, o tema da imigração ganha contornos violentos.
— Os filmes de Cantet e de Kechiche são obras realistas, de inspiração social. “O profeta” trabalha a partir de uma gramática ficcional, parecida com o cinema noir americano dos anos 1930 ou o filme noir italiano da década de 1960. Nesses dois países, a ficção refletia dilemas sociológicos típicos da época — explica Audiard. — Meu filme é, também, o reflexo de um tempo. Um tempo de contradições marcadas na convivência de diferentes línguas e diferentes culturas.
